Vinicius já dizia que o bom samba é como uma oração. Não percam tempo: ajoelhem-se e peçam a benção. Brincando de ser Deus; fanfarronando. Mas saibam que somos nada sem súditos. E bons súditos são aqueles que são melhores que seus mestres e sabem disfarçá-lo. Gabolices, burburinhos e sobrancelhas erguidas. Portanto, contamos com a fé cênica de cada um. Finjam bem. Palavreando ao léu, fiscalizando o palavrear alheio. Na letra, no texto, na edição maldita de cada dia. Da conversa de bar ao lero-lero erudito. Endossem o discurso, sirvam-se de oferta. Na lama, na lama.

Friday, June 26, 2009

Estudo sobre a Cidade - VII

Tomar a cidade. Num gole só, de uma vez. Ou em pequenas doses, aos poucos, experienciando cada doce momento, cada gole amargo. Embriagar-se paulatinamente, flanando e tropeçando. Às vezes, numa boa, nadando de braçada. Noutras, claudicando, praguejando: esta mulher-diabo. Em partes, velha e caduca, judiada com suas varizes à mostra, suas estrias inchadas, seus vasos salientes. Repleta de rugas, cicatrizes profundas. Uma superfície de machucados antigos que coexistem com ferimentos recentes, abertos, à mostra. Antiga e castigada, é também indecente. Tem alça do sutiã pendente e deixa um dos seios à vista. Para provocar. Atraente, promete delícias sem qualquer compromisso. Um universo sem pudor. Permissiva e lasciva. A cidade é às vezes uma mulher de pernas abertas. E em outras, pudica. Falsamente. Entre senhora de respeito e jovem insinuante. Só que bem-tratada, boa de ver. Pode ser sinuosa, sensual – muitas curvas e longas vias. E, num instante, maturada, de recato e terço na mão. A cidade é uma santa que profana.

A crise daquilo que gosto de chamar de cidade. Praças com suas pombas e pompas, feiras com suas bananas, madames, freiras. Moça bonita não paga, mas também não leva... Igrejinhas brancas e suas beatas que ardem, fervorosas, pelo deus fálico, conservando, em íntima umidade, a santa perversão travestida de pudor. Bendito é o fruto do vosso ventre... ah, Jesus. E os botequins, de piso vermelho, cada qual com seu altar sincrético – São Jorge, Preto Véio, Nossa Senhora e os doces. Porque Ogum bebe cerveja. A crise daquilo que gosto de chamar de cultura de rua.

1 Comments:

At 11:14 AM, Blogger danielandin said...

Do imaginário romântico.

 

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