Estudo sobre a Cidade - VII
Tomar a cidade. Num gole só, de uma vez. Ou em pequenas doses, aos poucos, experienciando cada doce momento, cada gole amargo. Embriagar-se paulatinamente, flanando e tropeçando. Às vezes, numa boa, nadando de braçada. Noutras, claudicando, praguejando: esta mulher-diabo. Em partes, velha e caduca, judiada com suas varizes à mostra, suas estrias inchadas, seus vasos salientes. Repleta de rugas, cicatrizes profundas. Uma superfície de machucados antigos que coexistem com ferimentos recentes, abertos, à mostra. Antiga e castigada, é também indecente. Tem alça do sutiã pendente e deixa um dos seios à vista. Para provocar. Atraente, promete delícias sem qualquer compromisso. Um universo sem pudor. Permissiva e lasciva. A cidade é às vezes uma mulher de pernas abertas. E em outras, pudica. Falsamente. Entre senhora de respeito e jovem insinuante. Só que bem-tratada, boa de ver. Pode ser sinuosa, sensual – muitas curvas e longas vias. E, num instante, maturada, de recato e terço na mão. A cidade é uma santa que profana.
A crise daquilo que gosto de chamar de cidade. Praças com suas pombas e pompas, feiras com suas bananas, madames, freiras. Moça bonita não paga, mas também não leva... Igrejinhas brancas e suas beatas que ardem, fervorosas, pelo deus fálico, conservando, em íntima umidade, a santa perversão travestida de pudor. Bendito é o fruto do vosso ventre... ah, Jesus. E os botequins, de piso vermelho, cada qual com seu altar sincrético – São Jorge, Preto Véio, Nossa Senhora e os doces. Porque Ogum bebe cerveja. A crise daquilo que gosto de chamar de cultura de rua.
1 Comments:
Do imaginário romântico.
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