Vinicius já dizia que o bom samba é como uma oração. Não percam tempo: ajoelhem-se e peçam a benção. Brincando de ser Deus; fanfarronando. Mas saibam que somos nada sem súditos. E bons súditos são aqueles que são melhores que seus mestres e sabem disfarçá-lo. Gabolices, burburinhos e sobrancelhas erguidas. Portanto, contamos com a fé cênica de cada um. Finjam bem. Palavreando ao léu, fiscalizando o palavrear alheio. Na letra, no texto, na edição maldita de cada dia. Da conversa de bar ao lero-lero erudito. Endossem o discurso, sirvam-se de oferta. Na lama, na lama.

Sunday, March 19, 2006

alguém olhou de fora e me viu sacudindo a cabeça

regalava-se com o deleite propiciado pela textura viscosa da merda pelo corpo. o cheiro preenchia a atmosfera. deslizava a pasta pelo chão, pelas pernas, pelos braços, pelo rosto. pelo ventre.

- que po.

uma calcinha se desprende, escorrega pernas abaixo. avance. introduza-se. preciso da enxurrada. do descontrole. porque querem que eu. querem que eu. e eu quero o que? quero? quem quer? abram as comportas. porque o medo não ensina, o medo mutila. vamos, vamos. por favor. por favor. as janelas aguardam. chova-se. gire o mundo. tudo porque. porque. não sei. apenas vento.

- cigarro?

não, obrigada. não fumo. obrigada. obrigada. por que eu vivo dizendo obrigada? não fumo, mas cá estou. ouça. ouça os carros lá fora. seguem trilhas do fim do mundo. os carros são o mundo. são o brilho de nossa majestosa civilização. velocidade e força. poder. poder para permanecer parada. parada no tráfico intenso das grandes cidades que apequenam as pessoas. por outro lado. os carros. os carros, eles. eles são o movimento. a intensa necessidade humana de se ir e vir. humana? não me faça rir. há um além. um além óbvio. as moléculas se sacodem. se pararem, congelam.

não quero congelar. quero calor. quero você por dentro, por fora. por completo. dentro, onde a carne se perde, sei. todos sabem. todos. esquecem-se, todavia. como se se envergonhassem. saber é vergonhoso. machuca. desestabiliza. e somos nada mais, nada menos, do que um mecanismo que procura a estabilidade, assim como heróis já procuraram eldorado.

- sábado, antes de dormir, gravei esse cd - tirou o cd do discman -. gravei e ouvi dentro do carro, domingo de manhã. ouvia e cantava. alguém olhou de fora e me viu sacudindo a cabeça. fiquei com vergonha.

- samuel não ganha o suficiente para comprar comida. ouvi isso em um documentário. achei bonito.

- por que fiquei com vergonha?

- não é bonito?

- não entendo.

- ei. não é bonito?

- é. quero dizer. bem. o que você disse mesmo, querido? eu não prestava atenção.

- samuel não ganha o suficiente para comprar comida, ouvi num documentário. não é assim, bonito? quero dizer.

- ah. é bonito. é sim... e. por que é que? que eu?

todas as manhãs joana acordava cedo e se deslocava até o serviço. a pele, viçosa. sempre limpa. naquela manhã, dia 12 de julho de 2004, encontrou um antigo amigo no ponto de ônibus. ele não havia se tornado alguém mais atraente. mas algo a seduziu. algo dentro dela mesma. como se uma onda a testasse. um desafio. aceitou e queimou os antigos escritos na fogueira. criava algo novo.

- vou ao banheiro.

- tá.

olhando no espelho do banheiro, estranhou. que pele suja!? que pele. sentiu vontade de correr. de correr até gastar as pernas. até rolar pelo chão e se afundar e desaparecer. viu os olhos das pessoas. lançavam setas venenosas. os olhos dos outros se emancipavam dentro de joana.

havia merda na privada. enfiou a mão, em desespero. o cheiro alastrou-se. esfregava no fundo da privada, com força. com prazer. não sabia. mas sabia. o mundo girava. estonteava. aplicou a pasta marrom no chão do banheiro. fedia. a luz penetrava pelo vitrô. alumiava. e fazia sombra. sombra, somente um pouco de luz a menos. via luz e sombra, então. não via nada, todavia. escafedia-se.

- que po.

rodnei sempre sonhara com uma mulher e um bom serviço. naquela manhã, encaminhava-se para uma entrevista, talvez arrumasse um trabalho, afinal. porque diziam que "sem um trabalho, não dá, né rodnei, 'taquipariu!" sentia um aroma de desgraça no ar, enquanto aguardava o ônibus. ia para onde não pedira para ir, embora não soubesse. até que ela surgiu. conectaram-se, imediatamente, surpreendentemente. como se não houvesse como. uma pitada de ideal e pronto, preteriu o trabalho pela mulher.

- que porra é essa?

a merda se espalhava pelo chão, pelo corpo de joana. não havia muito, mas o horror e o cheiro potencializavam o poder da merda. náuseas; mas a dela era distinta. ela parecia feliz, enquanto que ele, estupefato e enojado. quando o percebeu, os olhos carregados de horror, gradativamente se deu conta. não se abalou, entretanto. caminhou ao chuveiro, séria. o sorriso de contentamento desaparecera. certo, certo. eu sei. é estranho. claro que é. se é. mas é assim. preciso aceitar. senti-me tão repleta. tão. que não pude. não pude. sabe. eu não pude evitar devido a. a. não pude evitar. e ele me fitava, ainda incrédulo. eu me banhava e mantinha o olhar digno.

- eu. caralho. como é que. por que? por que? você. como é que. essa merda toda?

a água morna escorria e me alimentava. com o rodo, aos poucos trouxe a merda até o ralo. a água ia. ia. ia lavando. espalhei, graciosamente, xampu por todo o chão do banheiro. eliminar o cheiro. isso. e ele ali. na porta. silenciava, mas o olhar dizia, reprovava. esfreguei-me bastante. limpei tudo.

terminei o banho demorado. ele se mantivera em pé todo aquele tempo. olhando para mim. findo banho, agarrou-me, lança em punho. venha, meu querido, venha. não mais fugirei. nunca mais. não mais fugirei de mim mesma.

yane santiago
17/11/2005

***

Não sei o que fazer com esse texto. Ele me fustiga, e, maldito, quer intimidar a edição. Pretensioso, quer intimidar o ato-mutilação da edição nossa de cada dia, da castração. Imagens que preenchem o todo-imaginário, a toda-imaginação. Que por mais que flertem com o tal imaginário geracional batido, com a intimidação fácil do escatológico, com a quase-irritante linguagem-pontuação-estilo modernouso, com a construção textual fragmentária que soa enigmática à leitura pouco pensante. Por mais que. Ele nos alcança e vence a barreira da fruição, meta-maior. Mas que, aqui, mesa de bar, ainda não é o suficiente. Desce mais uma?

3 Comments:

At 12:23 PM, Blogger O Último said...

Finalmente começou.

 
At 7:56 AM, Blogger . said...

Bom que metade da diretoria fica de fora das atualizações.

 
At 7:56 AM, Blogger . said...

Bom que metade da diretoria fica de fora das atualizações.

 

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