Vinicius já dizia que o bom samba é como uma oração. Não percam tempo: ajoelhem-se e peçam a benção. Brincando de ser Deus; fanfarronando. Mas saibam que somos nada sem súditos. E bons súditos são aqueles que são melhores que seus mestres e sabem disfarçá-lo. Gabolices, burburinhos e sobrancelhas erguidas. Portanto, contamos com a fé cênica de cada um. Finjam bem. Palavreando ao léu, fiscalizando o palavrear alheio. Na letra, no texto, na edição maldita de cada dia. Da conversa de bar ao lero-lero erudito. Endossem o discurso, sirvam-se de oferta. Na lama, na lama.

Thursday, February 09, 2006

Rua

Série de sobrados geminados - porta-janela-janela ou garagem-janela não importa, heterogêneos em estilo, semelhantes no ar que difundem, em que guardam, casinhas singelas, o tom suburbano dos bairros distantes do Centro. Profusão de paralelepípedos que vai construindo caminho íngreme, sob formas irregulares, numa sina de asfalto, numa saga de chão - chão de microcosmo urbano, chão de comunidade-rua.

Pois acontece que a possível rua mais estreita da Penha se singulariza pela sua falsa aparência. Inofensiva e tradicional à primeira vista, escondendo suas sutilezas somente perceptíveis aos moradores mais antigos. E atentos. Através de um olhar cauteloso, é possível auferir dela aspectos curiosos e uma gama de pequenas surpresas e personagens, grandes na dimensão que alcançam, além de particular concentração de serviços nesse espaço físico cujo formato lembra a letra "L".

Numa ponta desse L - o fim da extensão menor, o braço horizontal da letra -, a rua Padre João. Com alguma renda e cetim, é conhecida, hiperbolicamente (ao menos hoje em dia), como "rua das noivas" pelo seu acervo pincelado de lojas especializadas em vestidos de casamento. Na verdade, não se sabe se algum dia já houve, de fato, mais de quatro. Teriam ido à falência? Afinal, atraíam freguesia? Bem, para todo gosto, um freguês. Já faz alguns anos que, no letreiro de uma dessas lojas, lê-se: "Só não casa quem não quer". Dentro, vestidos azuis de lantejoulas.

Na outra ponta do L, desembocando do braço maior, a extensa avenida Amador Bueno da Veiga, importante via da zona leste paulista, que se inicia logo ali, na Praça Micaela, ponto de ônibus e recanto de pombas e estátuas sujas, finalizando-se em São Miguel Paulista. É chão!

Do ponto central desse L, nasce uma rua sem saída, vielinha, ex-reduto para o fumo de maconha. E, assim, temos as três delimitações que compõem essa rua penhense, cujo nome, segundo o vernáculo, é sinônimo de querela, contenda, ou seja, conflito, briga, quebra-pau.

Partindo da ponta que se avizinha à avenida, a rua ostenta, de um lado, um banco e, de outro, um bar que respeita os ditames clássicos de um boteco urbano. Decadente com sua construção já em ruínas e seu ar inóspito, pouco higiênico por apresentar chão e balcão sujos de pó ou de resquícios da última refeição. Suor nas têmporas, bocas cansadas, fumaça de cigarro, fartum de álcool. No andar superior, na esquina da Amador com a Perequê, funciona uma pequena casa de tolerância. Em sua fachada rosa e humilde, palavras pichadas constroem a frase "Deus deu a vida para cada um cuidar da sua". Quase discreta. Não se ouve comentários sobre a boate entre os moradores, mas, ao cair da noite, a aglomeração de carros próxima ao local e as luzes pisca-pisca sinalizam seu funcionamento.

Mais para frente, dois estacionamentos. Localizados cada qual em sua calçada e quase frente-a-frente, eles detêm a guarda dos carros. Mas nem sempre foi assim. Por muito tempo, houve somente um. Depois de 20 anos de serviços prestados aos habitantes da Perequê e de boa parte da região central da Penha sem qualquer concorrência, o antigo estacionamento viu sua clientela ser reduzida. Os bons tempos findaram-se depois que um terreno que abrigava casas alugadas foi totalmente tombado e, em seu lugar, teve-se a idéia de erguer um outro estacionamento para a rua, dada a constante procura por esse tipo de serviço. A ameaça do novo estabelecimento só veio a acentuar os problemas do velho porta-carros. As freqüentes trocas de gerência e as mudanças de prazos de pagamentos foram algumas das questões que desagradavam os clientes e que acabaram corroborando para o enfraquecimento da credibilidade mantida por tanto tempo.

Essa rua de casinhas geminadas à esquerda e de casas com garagem à direita ainda abriga outras atrações como um colégio evangélico, uma cartomante, um grupo de senhoras costureiras. É possível surpreender-se com um morador que se exercita em longas corridas que percorrem essa comunidade-rua de ponta a ponta acompanhado, religiosamente, de seu cachorro poodle. De porte atlético, esse simpático ao exercício esportivo desempenha sua atividade física sob o olhar dos transeuntes curiosos. Assim, ele integra mais uma daquelas realidades sobre as quais todos têm uma opinião, mas ninguém nunca comenta.

Daniela Landin

4 Comments:

At 7:20 PM, Blogger danielandin said...

1. Por que jornalista gosta de texto chato?

2. Por que não consigo ser João Antônio?

 
At 11:57 AM, Blogger . said...

Mais uma vez sou sacaneada [pra não cair no melodrama e dizer corneada] por Daniela Landin. Vim saber deste texto pelos outros. Quando ler, coloco comentário maldoso.

 
At 5:21 PM, Blogger Marcos Cruz said...

Uauu....
João Antônio é João Antônio...

 
At 5:22 PM, Blogger Marcos Cruz said...

Visite o Blog do Motim....
Vê o qual é o Drama dá coisa realmente...
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